Nuh! Festival: arte impressa, arte humana

🕐 March 18, 21:05 📖 8 min de leitura
Nuh! Festival: arte impressa, arte humana

“A gente se entende como uma ferramenta para manter a tradição da arte impressa.” Esta fala, dita por Pedro Valentim, um dos organizadores do evento, resume bem a proposta do Nuh! festival de arte gráfica que aconteceu em Beagá nos dias 06 e 07 de setembro.

O evento, que uniu mais de 135 expositores de 11 estados do Brasil, foi muito mais que uma feira de arte, propondo aos visitantes um universo de atividades tão envolventes que você não via o tempo passar. O visitante entra pensando em dar uma passadinha e quando vê já tem horas que está imerso em uma nuvem de desenho, livros, pinturas e cultura.

E este é exatamente o diferencial do Nuh!Festival. Ao idealizar o evento, Pedro Valentim (PDR) e Martokos, queriam fazer mais do que uma feira e criar um ambiente onde as pessoas pudessem ir e passar o dia, envolvidos por arte, música, comida boa e debates.

“A gente circulou por muitas feiras gráficas em BH e em outros estados do Brasil, entre 2016 e 2019, e esse movimento (…) despertou o desejo da gente fazer uma feira em Beagá que conseguisse reunir essa cena das artes gráficas e das publicações independentes, a cena brasileira, aqui na cidade (…). Só que a gente não queria que fosse só uma feira, porque a feira você entra, vê a mesa de todo mundo e vai embora para casa. Nossa ideia sempre foi pensar um festival que tivesse atividades que complementasse a feira, que também tivesse música, comida e uma sensibilidade maior para esse nosso olhar pro Hip Hop, pra cidade e pro grafite”, compartilhou PDR em entrevista ao Portal Malagueta.

A programação do festival incluía oficinas e palestras com temas variados do mundo da arte gráfica. Os visitantes puderam participar do desenvolvimento de um zine (publicação independente) guiados pelo artista marco sem s, desenvolver adesivos autorais com a artista kali, descobrir a serigrafia com a galera do street screen e teve até uma oficina para crianças que ensinou a arte da cianotipia, técnica fotográfica artesanal do século XIX que combina sais de ferro e a luz do sol para revelar imagens em tons de azul profundo.

Dentre as palestras que ocuparam o teatro da Funarte MG, uma que chamou atenção pelo tema foi a “Itacolomi: uma letra mineira”. A palestra com o convidado Emerson Eller discutiu o desenvolvimento da tipografia itacolomi, criada a partir de antigas publicações mineiras, honrando o trabalho dos primeiros tipógrafos mineiros que improvisaram impressoras sem recursos especializados.

O debate com Eller deixou claro a forte relação do festival com a continuação da tradição da mídia e da arte impressa, mostrando ao público como uma simples fonte pode carregar anos de história.

Um festival pensado para te mostrar os rostos por trás das produções

É possível dizer que os esforços dos organizadores e dos artistas para evocar a importância da impressão e do físico não foram em vão. Em um mundo onde a socialização e a humanização são constantemente deixadas de lado pela barreira das redes sociais e da inteligência artificial, o Nuh! Festival é um respiro de ar fresco.

“É a gente pensar que o Nuh! ele é mais um projeto que se propõe a contribuir para manter essa tradição, essa coisa da gente ter produtos que a gente possa pegar neles. A feira tem uma coisa muito legal assim especificamente que é a onda de você conhecer o artista. Não é só comprar, igual você chega em uma loja de um shopping e compra um quadro de alguém. Aqui você vai conversar com a pessoa que faz o trabalho e a relação com aquele resultado (a arte) que você está comprando é muito diferente quando você consegue se conectar com a pessoa e entender os processos.”

Essa conexão entre o artista, os processos e o produto dá aos visitantes uma compreensão mais ampla daquilo que estão levando para casa, o que impacta diretamente no valor que damos à arte e ao trabalho alheio.

Normalmente, quando vemos um desenho, pintura ou impressão artesanal, não conseguimos mensurar as etapas e o esforço colocado para desenvolver o produto final. Artistas como Helder, fundador da Costuradus experimentos gráficos, editora independente de Campinas, são responsáveis por todo o processo de criação, sendo necessário muito trabalho para produzir um único livro.

Especialista em livros interativos e zines, o artista gosta de arriscar e misturar diferentes técnicas de criação, resultando em livros como o Zine Ping Pong, um livro ilustrado que retrata uma quadra de ping pong, onde os animais são os jogadores e acompanha um pacote de stickers para você mesmo decidir quais serão as chaves deste campeonato. “A história também pode ser contada atrás das páginas, de como você coloca a montagem do seu trabalho”, compartilhou o autor em entrevista para o Malagueta.

Outra criação do artista, que estava disponível na feira, é o Zine “Fome de Maçã”, um pequeno livro em formato de maçã, no qual um bichinho vai comendo o livro e deixando furinhos nas páginas.

costuradus

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Helder é responsável por todas as etapas de criação da editora. “Sou eu que faço tudo, é uma eu-ditora”, brinca o artista. “Eu imprimo, eu faço montagem, embalagem, design, é um processo gigantesco.”

Ao conversar com os artistas, aqueles desenhos, prints, cadernos ou até mesmo um livrinho de maçã, deixam de ser apenas papel e tinta para se tornarem histórias, pessoas e culturas.

O uso da arte como veículo de distribuição de mensagens estava presente em todo o festival, em produtos como a ecobag de trança vendida pela artista Jaiane Damasceno, representante do coletivo Di Negro Lambe.

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fotos por Malagueta

Jaiane, além de expositora, também participou do bate-papo “Lambes: entre ruas e festivais”, que discutiu a importância dos lambes na disseminação da arte. Durante a conversa, Jaiane contou como ela e outros moradores da Favela do Nove, em São Paulo, encontraram no lambe uma forma acessível de divulgar a arte, se expressar e informar a comunidade.

Para os artistas, o contato próximo com o público também é extremamente positivo e abre portas para novos mercados. “Rede social divulga, mas acho que quando você está no presencial divulga muito mais, a pessoa conhece (seu trabalho). Nem sempre a rede social está entregando o que precisa e quando você vai na feira, você tem a troca, você conversa com a pessoa, apresenta o trabalho, é totalmente diferente, tem uma energia diferente”, compartilhou Daniel, dono do blog mixidão, no qual publica receitas ilustradas.

Daniel começou com as receitas, iluminadas por alimentos e utensílios com rostos simpáticos, e posteriormente publicou um livro culinário ilustrado. Hoje, após descobrir as feiras gráficas, expandiu a produção e faz outros produtos, como cadernos e placas decorativas.

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Expo 97: a vivência periférica nas miniaturas de Fhero

O festival também contou com a Expo 97, que reuniu trabalhos do artista Fhero. O artista, original de São Paulo, trabalha majoritariamente com o grafite, pois acredita que é nas ruas que está o público com quem ele quer conversar, e não em galerias de arte. Para o Nuh! Fhero apresenta uma mostra vulnerável, com retratos de sua infância e vivência na periferia, representadas em cenários em miniatura, que unem pintura, modelagem e colagem.

A mostra se destaca pela atenção aos detalhes de cada pequena história contada. O cuidado em escurecer o tom da parede acima de uma fogueira ou incorporar materiais diversos como fios e arame para trazer mais realidade para a peça são algumas das características surpreendentes do trabalho de Fhero.

Obras da Expo 97/ fotos por Malagueta

Nuh! Festival: uma experiência cultural 360º

Complementando as palestras, a exposição e a feira de arte, os dois dias de eventos foram regados por música boa e comida de qualidade. Além das bebidas e comidas tradicionais – água, limonada, xeque-mate, chopp e espetinho – os visitantes puderam degustar os quitutes oferecidos pelo restaurante Kitutu, reconhecido pela cozinha afetiva que evoca as ancestralidades africanas de nosso país. O cardápio contava com um xinxim de frango e moqueca de banana da terra, acompanhados por acaça e salada de feijão fradinho.

Por fim, uma das experiências que chamou atenção foi a batalha de tags, que aconteceu no final do dia de sábado. Os participantes eram convidados a criar tags a partir de palavras sorteadas na hora e os vencedores de cada duelo eram escolhidos a partir do voto do público e dos jurados. O grafiteiro Shark foi o vencedor da batalha e conquistou o voto público em todas as rodadas em que participou.

A palavra da rodada final da batalha foi “Palestina Livre” e o apresentador tirou um momento para ressaltar a importância de se posicionar contra o genocídio que está acontecendo na Palestina. “Há um movimento forte para cessar as manifestações contra o genocídio que está acontecendo em Gaza e nós não podemos deixar isso acontecer. Missão nossa é falar sobre, refletir sobre e lutar contra. (…) Estão dominando um território em 2025 e isto está passando como se nada fosse. Convido todos e todas a entender essa história e se posicionar contra o que está acontecendo”, compartilhou em nome do festival.

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fotos por Malagueta

A terceira edição do Nuh! Festival termina em clima de reflexão, comunidade e afeto, proporcionando aos expositores e visitantes uma experiência completa de imersão cultural e aprendizado.